Com a popularização da internet, a informação, inclusive médica, se tornou disponível e de fácil acesso para grande parte das pessoas. Nas redes sociais os relatos pessoais de como é viver com determinado transtorno, como por exemplo, o autismo, abrem a possibilidade de outros se identificarem com a narrativa e procurarem uma avaliação médica, objetivando saber se compartilham do mesmo diagnóstico.
Nos últimos anos, foi observado um aumento da procura por diagnóstico de autismo por pessoas adultas. A motivação para esta procura não é completamente clara na
literatura científica. Há alguns relatos que a procura por diagnóstico de autismo nos adultos teve relação com experiências cotidianas negativas, nas quais as pessoas não compreendiam os motivos para as suas dificuldades, ou com o fato de ter um filho que recebeu o diagnóstico de TEA. Importante notar que pessoas com sintomatologia mais sutil do transtorno do espectro autista, com um bom nível cognitivo e que hoje são adultos ou idosos, apresentam mais chance de não ter recebido o diagnóstico de autismo na infância.
Um estudo com 161 autistas que receberam o diagnóstico de autismo após 18 anos demonstrou que 81% dos homens e 68% das mulheres já haviam sido atendidos em serviços de saúde mental, sendo o tempo médio decorrido entre a primeira avaliação e o diagnóstico de TEA de 11 anos para homens e 12 anos para mulheres. Neste grupo, 66,5% haviam recebido outros diagnósticos psiquiátricos (antes do diagnóstico de autismo), sendo que 25% receberam dois ou três diferentes. Sendo assim, os diagnósticos errados privavam os entrevistados de uma intervenção correta e reforçam o sentimento de serem diferentes e de não se encaixarem no mundo. Mesmo após estudarem e se reconhecerem como autistas, o tempo médio entre o autodiagnóstico e o recebimento formal do diagnóstico por um profissional foi de 3,25 anos. Diante da grande dificuldade e tempo de espera para se receber o diagnóstico de autismo quando adulto, ou até idoso, é fundamental que se conheçam os sentimentos e as repercussões que esta nova realidade trará para o indivíduo. Essa vivência precisa ser legitimada, sendo fundamental o entendimento do tema a partir de relatos dos próprios autistas, sempre levando em conta o seu contexto social e cultural.
Direitos Adquiridos
Em 2012, a partir da Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012), o autismo foi formalmente reconhecido como uma deficiência. Esta lei, também conhecida como Lei dos Autistas, institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, garantindo acesso a tratamento e atendimento multidisciplinar, educação inclusiva e direito a vagas em escolas regulares. Sendo o autismo reconhecido como deficiência, os autistas adquirem também direito de acesso ao trabalho (inclusive com vagas reservadas para PCD, pessoas com deficiência) e aos benefícios sociais, como benefício de prestação continuada (BPC).
Portanto, nesse dia mundial de conscientização do autismo é importante ressaltar que o autismo não é um transtorno somente da infância. Por isso a necessidade de buscar profissionais capacitados para dar o diagnóstico e realizar o acompanhamento multidisciplinar, não só para as crianças, mas também para os adultos.
*Os dados desse artigo fazem parte da tese de doutorado do curso de psicologia da PUC-RIO, da neurologista e professora da UNIFASE/FMP, Carla Gikovate. Nessa recente pesquisa qualitativa brasileira, foram realizadas entrevistas com 12 autistas já adultos, onde devido ao diagnóstico, eles relataram alívio como sentimento principal.
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